quarta-feira, 14 de outubro de 2015

A PROFESSORA

Há quem me dera ver agora,
Os olhos de Dolores, na janela.
Aquelas pálpebras brilhantes,
De donzela,
Com seu olhar distante disfarçado.

Há quem me dera olhar,
Pra praça ao lado, da casa dela.
Onde todas as tulipas, amarelas,
Pareciam imitar a blusa dela,
Com todos aqueles detalhes enfeitados.

A que me dera, ao menos,
Ver os passarinhos,
Que dos seus ninhos, deitados,
Pareciam preguiçosos,
Contemplar, sossegados,
Os cabelos dela.

Que vistos de qualquer janela,
Mas pareciam o emaranhado de fios,
Das bobinas de linho,
De dona Carmesina costureira.

Que nas segundas feiras,
Vendia seus bordados de ouro,
E seus besouros de lata
de óleo vegetal vazia.

Há quem me dera voltar àqueles dias,
Onde os únicos problemas que existiam,
era quem ia chegar primeiro,
Naquele banco da praça,
Para junto com os comparsas,
Inventar brincadeira, só pra ficar olhando pra ela.

Dona Dolores.
Nossa professora.
Que na sala do grupo da roça,
Ensinava as letras e a tabuada.
E na praça,
Nem imaginava:
Pela sua janela aberta,
Como sonhar com as meninas.

ElsonMSilva


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A CHUVA

O fenômeno natural mais desejado pelos sertanejos
É a chuva.
Vista como uma benção de Deus.
Que nos desígnios Seus,
Decidiu testar continuamente
A fé de todo aquele povo.

A sua incerteza, e irregularidade,
força os moradores das cidades
a aguardar sua chegada.
Como se espera uma Rainha.
Que pode chegar a qualquer dia,
Ou hora,
Em silêncio ou ruidosa.
Enche a terra de alegria.

Para os do campo,
Ela é um acalanto, como o cantar das rolinhas,
que mesmo sozinhas,
Mandam embora o espanto,
E espalham por todo canto,
Ar puro de um novo dia.

O simples pingar,
De vapor simples que seja,
Nos corações já enseja
O vigor para o trabalho.

As vacas mexem os chocalhos,
Os bichos se alvoroçam,
E os que vivem da roça.
Sentem o cheiro da terra,
como um sinal para guerra,
Prontos para a batalha.

Enfrentarão mais uma vez,
Com a mesma disposição,
a árdua e pura missão
de lavrar a terra por fé.

Quem não planta não se arrisca,
quem não arrisca não colhe.
Mesmo que a terra só molhe,
Depois não lhe dê mais nada,
O sertanejo não cansa,
De apostar na sua enxada.

Ganha poucas,
Perde muitas.
Mais espalha do que ajunta.
Mas filho aprendeu de pai,
Neto aprendeu do avô:
Que o que Deus reservou,
Para cada um dos viventes,
Tá por trás da terra quente,
Escondida no Trabalho.

O campo no seu baralho
Nunca escolhe,
Ano nem data marcada.
Pra testar a valentia
Dos que vivem da enxada,
A regra do jogo é fria:
Ou arrisca tudo,
Ou não ganha nada.





terça-feira, 6 de outubro de 2015

O NASCER DO SOL NO SERTÃO

Quem nunca viu não pode imaginar
o que seja contemplar
O nascer do sol no Sertão.

Por trás do imenso paredão
da Serra,
Uma grande bola de fogo aparece,
Aos poucos a terra se aquece,
esquentada pelo seu fulgor.

Poucos minutos depois,
o espetáculo se finda,

Pra ver do Exu a Araripina,
A terra se mostrando aos poucos.
Tem que dormir pouco e acordar cedo.

Pra contemplar o segredo,
Da superfície em brasas.
Quando os sertanejos em casa,
Estão ainda sonhando,
Ele está se assanhando,
Pra começar a jornada.

As nuvens parecem respeitar
A hora do seu despertar.
Porque quase sempre à essa hora,
Elas vão todas embora,
Pra ele poder passar.

E parece que é exigente,
Não quer ver ninguém
na frente,
por isso acho que elas fogem.

E ele, autoridade maior,
Se ergue de um pulo só.
Com suas chamas acesas.
Mostrando sua beleza,
Por um minuto só.

Depois de se levantar.
Quem inventar de olhar,
Cara a cara pra ele,
Vai logo se arrepender.
Ao ver a luz da labareda.

Capaz de queimar as bolas,
E sapecar as sobrancelhas
Do tolo que se arriscar.
E teimar em encarar,
Seu fogo que incendeia.

Assim segue numa boa,
Sem ninguém para interromper,
Sua pisada diária
Com calor de derreter.


ElsonMSilva








segunda-feira, 5 de outubro de 2015

ENTARDECER NO SERTÃO

EXTRAÍDO DO LIVRO: ACADEMIA DOS NOTÁVEIS
CAPÍTULO 1
Pagina 03:


Do lado sertanejo da Serra,
Se estende uma grande planície,
Arenosa, 
Sem nenhuma formação montanhosa,
Pra impedir a passagem,
Das nuvens,
Que nas estiagens,
Passeiam por cima da terra,
Quase secas.

Na verdade,
É uma grande planície,
Que talvez tenha levado milhões de anos,
pra se formar.
Fruto do vento a arrastar,
sem barreira que lhe impeça,
Todo ano a promessa 
De um inverno que traga chuva.

Assim, na Chapada do Araripe, 
Não há árvores de grande porte,
Nem serras de estonteante altura.
De modo que na largura,
Que é a Serra,
Se estende pela terra
Aquela grande planície.
Praticamente sem nada.

É de tal modo Plana, a região,
Que à noite, da pra avistar,
Olhando na escuridão,
As luzes das poucas cidades, 
Não tão distantes,
E das vilas e vilarejos.
Que parecem os lampejos,
Dos vagalumes na noite.

Que iluminam os sonhos,
Das crianças animadas,
Que andavam a pé
Nas estradas,
E ouviam histórias nas praças.

Dos  mais velhos, que cedo da tarde botavam,
As cadeiras nas calçadas,
Para ver o final do dia.
E refrescar a cuca e a memória.
Vendo aquela correria, 
De menino por todo  lado.
E se desse, ouvir o canto.
Da lambu lá no cercado.


ElsonMSilva











sábado, 3 de outubro de 2015

A SERRA DO ARARIPE

LIVRO: ACADEMIA DOS NOTÁVEIS
CAPÍTULO 1
Pagina 02:

Crescemos olhando pra ela.
Um muro azul natural,

Criado por Deus.

Uma muralha de sonhos,
Que lembram os olhos seus.
O que será que há depois dela?
Por quanto tempo pensamos,
Aguardando a nossa hora chegar.

Pra fazer a viagem esperada,
E pegar a estrada,
Subindo por cima dela.
Pra espiar as novas terras,
Que ficam do lado de lá.

Ao longe, olhamos pra ela
serena.
Um muro azul, sem fronteiras,
Que aparece do nada,
E some do outro lado
do mundo.

O seu  olhar de orgulho,
Servindo como barreira,
Pra quem quer que seja,
Imponente, deslumbrante.

Ficamos à sua frente,
Indo pro poente,
Estonteante.
E a encaramos tão forte,
Falam que os que têm mais sorte,
São os que nasceram do outro lado.

É que pegam o sol mais preguiçoso,
Antes do meio dia.
Depois que o mundo alumia,
Com apenas sua luz radiante,
Ele salta a serra, distante
Como que pronto pra guerra,
Sai queimando o horizonte.

Os raios com toda força,
Sai ionizando a terra,
E como numa banguela,
O sol desce em disparada,
Vai varrendo a Chapada,
Com seu calor fumegante,
E o povo ofegante,
Debaixo da suas brasas.

A Serra que nos separa,
Duas histórias,
Duas vidas.
Cada povo que o diga,
conforme suas pegadas.
Seus veios, suas estradas.
Suas covas,
Suas trilhas.

Serra do Araripe:
Aqui começa a história.

ElsonMSilva.








quinta-feira, 1 de outubro de 2015

SERTÃO DO ARARIPE E VALE DO CARIRI

LIVRO: ACADEMIA DOS NOTÁVEIS
CAPÍTULO 1
Pagina 01:

O Sertão do Araripe é uma das regiões mais pobres do Brasil,
Está localizada entre os estados do Ceará, Pernambuco e Piaui.
Tudo que é associado à dificuldades se pode achar por ali.

Se os pais não se mudarem,
Ou os filhos pra estudarem,
forem embora dali.

Viverão como isolados,
Como vivem os exilados,
Num país longe daqui.

O Araripe está fincado,
No lado ocidental
da Serra.
Da Maior que há
na Terra:
Das serras que já se viu.

Pelo menos pra quem nasce,
No sopé do paredão,
É quase uma ilusão
Poder imaginar,
Que possa em outro lugar,
Ter serra maior que aquela.

Incrível é ver que ela,
Desígnio da natureza,
Separa duas belezas,
De impressionante contraste.

Dum lado um sertão seco,
Sofrido com estiagens,
Do outro belas paisagens,
Pertencente ao Ceará.

É o Vale do Cariri,
De exuberante beleza,
De incalculável riqueza,
Terra dos canaviais.

Uma terra
farta
de mananciais,
Por lá chove o ano inteiro,
É lá: Crato e o Juazeiro,
Dois centros comerciais.

Lá tem grandes hospitais,
Fábricas de bebida a brinquedo,
Dizem que até de dinheiro,
Tem máquina escondida lá.

Mas, de pavio de candeeiro,
A esqueiro, enxada e vela,
Tudo tem naquela terra.
Que você imaginar.

Até universidades,
Quem podia imaginar!
As primeiras a chegar,
Foram por lá instaladas.

Do outro lado as enxadas,
levantam o pó da poeira,
Da terra que castigada.
Luta incansada com a seca.

Dos doze meses do ano,
Se três chover: bom de mais,
Se plantar, e se lucrar,
tanto faz como perder.

E três anos sem chover,
virou quase o natural.
No Araripe, o principal:
É plantar pra se comer.

Enriquecer?
Não faz sentido por lá.
Feijão verde com jabá:
É uma festa no Sertão.

Povo de bom coração,
De riqueza diferente,
O sofrimento fez
daquela gente,
Um povo batalhador.

Que se contenta com pouco,
Divide se lucrou muito.
Que se contenta com tudo,
e não se assusta com nada.

Que não tem medo da estrada,
No calor do meio dia,
Nem da fogueira em brasa
Da areia lá da roça,

De onde se tira a mandioca,
Que vai fazer a farinha,
Pra levar pro Juazeiro,
Na serra do piquizeiro

Pra se ganhar o dinheiro
De todos que vão ali.
Dos filhos do Araripe,
Com o povo do Cariri.



ElsonMSilva
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LIVRO EM RIMA

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ATÉ LÁ.